Patrocinador entra em contato, pede a "proposta de cotas" e você manda um PDF bonito com logos em tamanhos diferentes. Ele responde: "legal, mas quanto vale cada cota?" E aí a conversa trava. Esse roteiro se repete em dezenas de eventos por ano, e o problema quase sempre é o mesmo: o organizador não sabe precificar contrapartida de marca com critério.
Precificar não é chute nem feeling. É conta.
O que é contrapartida de marca, afinal
Contrapartida de marca é tudo que o patrocinador recebe em troca do aporte financeiro: exposição visual, menção em comunicação, espaço físico no evento, acesso a base de atletas, brindes e ativações. Cada item tem um custo de produção ou um valor de mercado equivalente, e é a soma desses itens que forma o preço de uma cota.
O erro mais comum é montar cotas por "camadas" (ouro, prata, bronze) sem calcular o que cada camada entrega de verdade. O resultado é um patrocinador que paga R$ 5.000 e recebe R$ 800 em contrapartida real, ou o inverso: você entrega R$ 8.000 em valor e cobra R$ 3.000.
Como calcular o valor de cada contrapartida
A lógica é simples: cada item da proposta precisa ter um número na frente.
Exposição visual (logo e marca)
Estime o alcance real do evento. Num evento de 500 atletas com acompanhantes, você tem entre 800 e 1.200 pessoas no local. Some o alcance das redes sociais (seguidores ativos, não total), o número de impressões no e-mail marketing e a tiragem de qualquer material impresso.
Com esse número em mãos, use o CPM (custo por mil impressões) como referência. Em mídia digital brasileira, o CPM de display gira entre R$ 8 e R$ 25, dependendo do segmento. Esporte e saúde ficam na faixa de R$ 12 a R$ 18. Se sua comunicação pré-evento alcança 40.000 pessoas, o valor de mídia equivalente fica entre R$ 480 e R$ 720 só nesse item.
Contrapartida sem número é pedido de doação. Com número, é negócio.
Espaço físico e ativação
Estande na largada, tendas no percurso, espaço de hidratação patrocinada: tudo tem custo de oportunidade. Se você alugasse aquele espaço para um expositor avulso, quanto cobraria? Use esse valor como base.
Um espaço de 6 m² em evento de médio porte no Pará pode valer entre R$ 1.200 e R$ 3.500 por dia, dependendo do fluxo. Não invente: pesquise o que eventos similares cobram ou o que feiras locais praticam.
Menção em comunicação
E-mail para base de atletas, post dedicado nas redes, menção em transmissão ao vivo. Cada um tem valor separado.
- E-mail para lista de 2.000 atletas: R$ 200 a R$ 600 (compare com plataformas de e-mail marketing pagas)
- Post patrocinado no Instagram (alcance orgânico de 3.000): R$ 150 a R$ 400
- Menção em transmissão ao vivo de 1 hora: R$ 300 a R$ 800
Some tudo. Esse é o valor de mercado da cota, não o preço que você vai cobrar, mas o teto a partir do qual você negocia.
Cotação realista de patrocínio: o que o mercado pratica
Cotação realista de patrocínio parte de dois dados: o que você entrega e o que o mercado paga por entrega similar.
Para corridas regionais com até 1.000 atletas, as cotas costumam variar entre R$ 2.000 e R$ 15.000 por patrocinador. Eventos com mais de 2.000 inscritos e forte presença de mídia local podem trabalhar cotas entre R$ 8.000 e R$ 40.000.
O problema é que muitos organizadores copiam tabelas de eventos maiores sem ajustar para seu porte. Uma corrida de 300 pessoas não tem o mesmo alcance de uma de 3.000. A cotação precisa refletir o seu número, não o do vizinho.
Um ponto prático: o CorreAí já tem 5.276 atletas ativos na plataforma e 6.093 inscrições realizadas. Se você usa a plataforma, o acesso à base de atletas engajados é um item concreto que pode entrar na proposta de patrocínio com número real.
Rateio de despesas fixas e o impacto no ROI do patrocinador
O patrocinador sofisticado vai perguntar sobre ROI. Para responder, você precisa ter feito o rateio de despesas fixas do evento.
Rateio de despesas fixas significa dividir os custos que não variam com o número de atletas (aluguel de espaço, sistema de cronometragem, seguro, palco, gerador) pelo total de inscritos. Se você tem R$ 30.000 em custos fixos e 500 atletas, cada atleta carrega R$ 60 de custo fixo.
Esse número importa para o patrocinador porque mostra o quanto do orçamento do evento depende de receita de inscrição versus receita de patrocínio. Um evento que cobre 40% dos custos com patrocínio tem mais margem para investir em experiência, o que beneficia a ativação do patrocinador.
Mostre isso na proposta. O organizador que apresenta um DRE simples para corrida, mesmo que numa planilha básica, fecha mais patrocínio do que quem manda só o PDF de cotas.
O que incluir num DRE simples para corrida
- Receita de inscrições (por modelo: lote único, dois lotes ou multi-lote)
- Receita de patrocínio prevista
- Custos diretos por atleta (kit, medalha, chip, camiseta, hidratação)
- Custos fixos rateados
- Reserva de contingência (mínimo 8% a 12% do orçamento total)
- Resultado líquido previsto
A reserva de contingência não é opcional. Chuva, fornecedor que cancela, atletas a mais do que o previsto: imprevistos custam dinheiro. Eventos que não reservam essa margem chegam ao dia da corrida no limite.
Negociação com fornecedor e antecipação de recebíveis
Dois pontos que afetam diretamente o fluxo de caixa antes do evento.
Negociação com fornecedor: tente sempre parcelar ou pagar no mínimo 30% na assinatura do contrato e o restante após o evento. Fornecedores de cronometragem, gráfica e kit esportivo costumam aceitar essa condição para eventos com histórico. Se for sua primeira edição, ofereça visibilidade em troca de prazo: logo no kit e menção como "fornecedor oficial".
Antecipação de recebíveis: se você trabalha com inscrições parceladas no cartão, o dinheiro das parcelas futuras não entra no seu caixa de imediato. Plataformas como o CorreAí fazem repasse no mesmo dia, inclusive em parcelado, o que reduz o risco de descasamento entre receita e despesa.
Se parte das inscrições vier por outros meios, avalie se a antecipação de recebíveis vale o custo. A taxa adicional de cartão já está no seu cálculo?
Erros que comprometem a precificação
- Não separar custos diretos de custos fixos. Camiseta é custo direto (varia com o número de atletas). Gerador é custo fixo.
- Montar cota sem listar o que está incluído. O patrocinador precisa saber exatamente o que compra.
- Ignorar o custo de produção das contrapartidas. Banners, camisetas com logo do patrocinador, espaço montado: tudo isso tem custo que sai do seu bolso, não do patrocinador.
- Não ter reserva de contingência. Já citado, mas merece repetir.
- Aceitar patrocínio em produto sem calcular o valor real. Produto como contrapartida tem valor, mas precisa entrar no DRE pelo preço de mercado, não pelo preço de tabela do patrocinador.
Próximo passo prático
Monte uma planilha com três colunas: item de contrapartida, custo de produção para você e valor de mercado equivalente. Some as duas colunas por cota. O preço da cota deve cobrir seu custo de produção e ainda deixar margem.
Se a soma ficar abaixo do que o patrocinador pagaria no mercado aberto por exposição equivalente, você tem um argumento concreto para a negociação. Se ficar acima, revise o pacote antes de enviar.
Precificar contrapartida de marca não é arte. É planilha.



